
A poucos quilômetros da linha de frente e a apenas 17 km da fronteira com a Rússia, o povo do pequeno vilarejo ucraniano de Staryi Saltiv vive entre a tentativa de reconstrução e os ataques constantes das tropas do Kremlin.
A vila, localizada na região de Kharkiv, uma das mais atingidas desde o início da invasão russa em 2022, já foi um destino turístico popular. Às margens de um grande lago de águas limpas, cortado por uma ponte e uma barragem, atraía visitantes da cidade de Kharkiv, a segunda maior da Ucrânia, que fica a cerca de 40 quilômetros dali.
Hoje, está praticamente deserta e muito devastada.
A ponte em direção à Rússia, por exemplo, foi destruída logo nos primeiros dias da guerra.
O ponto, visitado pela reportagem da CNN Brasil, marca também o limite de segurança: dali em diante, estão as posições russas que lançam ataques constantes contra o vilarejo. Nas imediações, restam pequenas lojas improvisadas, voltadas quase exclusivamente para soldados ucranianos que hoje representam boa parte da população local.
A presença da imprensa é tratada com desconfiança por esses soldados. A equipe da CNN Brasil foi parada ao menos quatro vezes em inspeções diferentes antes de chegar ao local.
Em uma delas, um sargento ucraniano que falava muito bem o espanhol mudou rapidamente de expressão ao saber que falava com um repórter brasileiro. Abandonou o tom ameaçador contra a presença de estranhos no local para explicar gentilmente a delicadeza da situação. Segundo ele, qualquer movimento incomum pode ser interpretado como ameaça em uma área onde infiltrações e ataques são constantes.
Durante a visita, um ataque com drones deixou pelo menos um ferido e destruiu um carro. Sirenes soaram diversas vezes durante o dia e soldados reagiram com disparos tentando interceptar os drones russos.
Uma escola destruída duas vezes
Um dos sinais mais visíveis da devastação é a escola da cidade, que foi destruída duas vezes durante a guerra.
O prédio original foi atacado no início da invasão russa, em 2022, quando a cidade foi ocupada logo no primeiro dia de guerra. Meses depois, já sob controle ucraniano, autoridades locais decidiram reconstruí-lo, numa tentativa de retomar alguma normalidade.
Mas a escola nunca chegou a reabrir. Antes disso, foi novamente alvo de ataques, desta vez por pelo menos cinco drones russos do tipo Shahed, que voltaram a reduzir o edifício a escombros.
Com financiamento da União Europeia, Staryi Saltiv construiu uma escola subterrânea no mesmo terreno do prédio destruído, bem ao lado dos escombros.
O novo complexo tem três andares subterrâneos, estrutura de concreto reforçado e capacidade para receber até 423 alunos. Um número hoje muito superior ao de crianças que permanecem na região, já que muitas famílias fugiram da guerra. Além de educar as crianças, o prédio também poderá ser usado como abrigo em caso de ataques maiores ou nova invasão russa na cidade.
A reportagem da CNN Brasil teve acesso exclusivo ao local antes da inauguração, prevista para meados de setembro, no início do ano letivo europeu.
A secretária de Educação da cidade, Irina Glazunova, explicou o tamanho do desafio e a decisão de se construir uma escola totalmente subterrânea.
“Em primeiro lugar, a situação de segurança é precária. Praticamente todos os prédios das instituições estão em ruínas e são perigosos. Como governo local, devemos fornecer serviços e garantir que as crianças tenham acesso à educação de alguma forma”, disse ela.
Ela destaca que a decisão vai além da escola. “até hoje, não temos um único abrigo na comunidade que atenda a todos os padrões de segurança. Por isso, foi necessário construir um espaço que servisse como escola, mas também como abrigo para a população”, disse.
Em setembro, mais de três milhões de crianças estão voltando às aulas na Ucrânia em meio à guerra. Muitos ainda têm aulas apenas à distância, por causa dos problemas de segurança. As atividades presenciais só são permitidas em locais que tenham abrigos antiaéreos adequados.
Onde isso não é possível, alternativas improvisadas se tornam regra. Em Kharkiv, por exemplo, alunos muitas vezes chegam a ter aulas dentro de estações de metrô, protegidas contra bombardeios.
“Sinto falta dos meus amigos”
Maria, de 13 anos, estudava na escola de Staryi Saltiv antes da destruição. A família decidiu continuar na cidade porque é o local de trabalho dos seus pais.
Perguntada sobre como se sentiu ao ver a escola destruída pela primeira vez, ela disse que foi uma situação assustadora.
“Fiquei muito triste e ansiosa, porque eu estudava nessa escola quando era pequena e agora ela está destruída; é muito triste e assustador”, disse.
Nos últimos anos, Maria esteve entre os milhares de estudantes que tiveram apenas aulas online.
Mas isso não substitui o convívio com os amiguinhos, segundo Maria. “É legal de certa forma, porque dá para fazer mais outras coisas durante o dia. Para alguns, é fácil até colar, mas é muito difícil entender a matéria ou ver o professor. E sinto falta de brincar com outras crianças. Já faz quatro anos”, disse ela.
A irmã mais nova, Uliana, de 8 anos, não vê a hora de voltar para a escola. E não apenas para estudar matemática e ucraniano, suas matérias preferidas.
“Eu quero cantar na nova escola. Já fui até lá”, disse ela com um largo sorriso.
FONTE: Por CNC




































